Chego ao salão no início do turno da manhã, no horário marcado Sou recebida com beijos, abraço e sorrisos por Viviane. Aos poucos, mãe e filhas vão chegando. Quando estão todas prontas, sou convidada a me dirigir junto com elas para a sala das noivas, pois lá teremos mais privacidade. Entramos todas na sala e nos sentamos. Quando olho, percebo uma sala cheia: mãe e quatro filhas, todas empreendedoras. Por um momento deixo a emoção me tomar, uma cena dessas é bastante rara, principalmente nos dias corridos em que vivemos. Rapidamente retomo o prumo, pois o trabalho espera a todas. Era hora de ouvir uma das mais lindas histórias de empreendedorismo que já conheci.

Ao trabalho!

Maria Helena Silva tem 75 anos e é uma das maiores cabeleireiras de Pelotas. No final da década de 1960, quando já tinha quatro de seus seis filhos (Gênova, Giane, Gengiscan, Gianelle, Viviane e Guilherme), ela queria aumentar a renda familiar. Como tinha habilidade no trato com os cabelos, em 1968, com a ajuda de amigos, abriu seu primeiro salão e começou a trabalhar.

À medida que os filhos foram crescendo, Maria Helena notou primeiramente em sua filha mais velha, Gênova, o mesmo dom para lidar com a beleza feminina. A filha, porém, seguiu o próprio caminho: fez faculdade, casou, teve filhos. Ela foi bancária, mas, como acompanhou a mãe desde criança, tinha total intimidade com o ofício de cabeleireira, por isso foi gradativamente assumindo funções no salão e também se profissionalizando através de cursos. Depois de algum tempo, resolveu abrir o próprio salão e, mais adiante, os salões se uniram e ambas trabalham juntas até hoje.

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Gianelle, Viviane, Giane, Maria Helena e Gênova

Depois de Gênova, foi a vez de Giane, Gianelle e Viviane também trabalharem no salão, que passou a chamar-se Maria Helena e Gênova Cabeleireiras. Gênova dá continuidade ao trabalho da mãe liderando a equipe de cabeleireiras, manicures, coloristas e escovistas. Ela sempre se interessou pela administração do salão, além da parte prática. Os cursos de aperfeiçoamento, bem como a participação em eventos e concursos estaduais e nacionais, contribuíram para a remodelação do negócio. Gênova também fez parte da Associação dos Cabeleireiros de Pelotas (ACAPel), quando passou a se envolver com profissionalização. Atualmente, ela ministra cursos em diversas cidades do estado.

Giane trabalhou por oito anos como bancária. Também trabalhou no salão como manicure. Nessa época, produzia arranjos florais e vendia para as clientes, bem como fazia pequenas produções para festas. Aos poucos, ela foi descobrindo uma nova habilidade, o que a levou a abrir uma floricultura, negócio que manteve por dez anos. O passo seguinte foi se especializar em decoração de festas, ramo em que atua há dezenove anos. Há aproximadamente sete anos, Giane convidou outros profissionais da área de eventos para fazerem parte de um espaço compartilhado. Lá, o cliente encontra todos os profissionais necessários para a realização de um evento.

Gianelle também trabalhava como bancária até que, durante a licença maternidade, começou a trabalhar como manicure no salão. Essa experiência levou-a a pedir demissão para passar a trabalhar com a mãe e irmã. Ela gosta muito da interação com as clientes, pois elas vão se tornando amiga, e também gosta de ver as mulheres vibrando ao se enfeitarem. Gianelle trabalha no salão há 27 anos, e lá também vende joias e roupas. “Me sinto os olhos e ouvidos de Maria Helena e Gênova, pois sou a responsável pelo salão quando elas não estão presentes”, afirma.

Viviane sempre foi muito vaidosa. Quando criança, era enfeitada pelas irmãs. Começou a trabalhar com elas aos 25 anos, como auxiliar de cabeleireira, fazendo escova, química e tratamentos capilares. Por um ano e meio fez cursos e trabalhou em São Paulo (no salão Studio W, um dos maiores daquela cidade) e, quando voltou para Pelotas, trabalhou mais 10 anos no salão. Em paralelo, Viviane trabalha em sua grande paixão, a mais de 20 anos que é a organização de eventos. Há um ano, em sociedade com o marido, inaugurou uma loja da franquia Óticas Carol. Mesmo dedicando-se à ótica, Ela continua trabalhando e se dedicando aos eventos.

O gosto pelo empreendedorismo está mesmo no sangue das mulheres da família. Prova disso é o fato de que a terceira geração já está empreendendo. Elena Streliaev, de 24 anos, filha de Viviane, trabalha como maquiadora. Em relação à maquiagem, Elena começou como uma autodidata, pois gostava muito de estar bem maquiada.Em dado momento, quando Elena tinha 19 anos, devido a uma situação de emergência, o salão precisava de uma maquiadora. Elena se prontificou a ajudar. Hoje muitas clientes fazem questão de serem atendidas por ela.

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Maria Helena e sua neta Elena

O legado de Maria Helena para as filhas certamente é o amor ao trabalho, que se traduz em comprometimento, pró-atividade e responsabilidade perante as clientes. Segundo Maria Helena, “com amor e prazer no que se faz, o negócio tem muito mais chances de dar certo. É preciso gostar e investir”. Viviane afirma que tudo o que ela aprendeu no salão com a mãe e as irmãs se reflete em seu trabalho como organizadora de eventos e também na ótica. Ela destaca que sua mãe sempre foi uma pessoa bem disposta, pois, apesar de eventualmente estar com algum problema ou mesmo doente, ela está sempre arrumada e bem humorada, sempre preocupada em dar o seu melhor às clientes, e isso é um grande exemplo. Sobre a mãe, ela Já Giane, fazendo uma retrospectiva de vida, pondera:

“O amor pelo trabalho nos leva a lembrar de situações muito antigas, mas também muito importantes para nós todas; Lembro que nossa mãe vendeu a geladeira para comprar a cadeira para o salão e outros materiais necessários para começar a trabalhar. Lembro também que, quando pequenas, eu e Gênova já ajudávamos: subíamos em um banquinho para termos altura suficiente para colocar rolinhos nos cabelos das clientes… aquilo acabava sendo uma divertida brincadeira. Hoje, nossa família é referência de união e isso é uma grande responsabilidade.”

Ao final do encontro, saio de lá encantada com tudo o que ouvi e inspirada por aquela linda família de mulheres tão fortes e unidas. Espero ter conseguido minimamente traduzir o que vivi com elas nesse texto. Fica aqui o agradecimento a elas pelo tempo dedicado a contar essa história, assim como nossa homenagem toda elas como mulheres inspiradoras e mães que são.

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